A pressa que o mundo tem de ver você bem ensinou a sua tristeza a ter boas maneiras.
Ela não interrompe conversas, não desmarca compromissos, não incomoda as visitas. Ajeita-se no fundo do peito e permanece ali, discreta, enquanto você oferece aos outros a parte mais bonita de um coração que também precisava ser acolhido.
A alma vai ficando exausta quando precisa fingir que nada lhe atravessa. Guarda palavras que mereciam ter sido ditas, aceita ausências como se fossem pequenas distrações, confunde resistência com a obrigação de suportar tudo. E a delicadeza, tão generosa com o sofrimento alheio, começa a faltar justamente dentro de casa.
Curar essa parte invisível exige um amor que tenha coragem de olhar para dentro. Um amor capaz de desatar culpas antigas, fechar as portas que só deixam entrar indiferença e devolver à própria vida o carinho que foi distribuído sem medida. Há uma ternura imensa em reconhecer: eu também mereço o cuidado que ofereço.
O primeiro sinal de florescimento surge nas coisas miúdas. A palavra «não» deixa de ferir a consciência. O descanso perde o gosto de dívida. O espelho já não precisa funcionar como tribunal. Você aprende a guardar um lugar à mesa para os próprios desejos, mesmo depois de tantos anos servindo primeiro a todos.
O corpo tem suas necessidades e merece atenção, medicina, repouso, tratamento quando preciso. A mente pede escuta e serenidade. A alma, por sua vez, implora que você pare de chamar de vida uma existência na qual nunca se escolhe.
Até os ossos recebem água, e as flores encontram passagem entre aquilo que parecia perdido. Que suas mãos, acostumadas a amparar o mundo, reconheçam o caminho do próprio peito.
Ainda existem raízes vivas debaixo do que você aprendeu a chamar de ruína. Aproxime o regador. A sua alma merece água antes que o mundo lhe peça mais uma flor.
Diário espírita.

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