Precisamos de regressar à sua escuta.
Precisamos de reconhecer e transformar a memória que nele ficou inscrita.
A memória dos medos.
Da raiva.
Do ressentimento.
Da culpa.
Da vergonha.
Da rejeição.
Do abandono.
E talvez, antes de todos os outros abandonos, exista aquele que acontece quando nos abandonamos a nós próprios.
Quando deixamos de escutar aquilo que sentimos.
Quando silenciamos a nossa verdade para sermos aceites.
Quando permanecemos onde todo o nosso Ser nos pede movimento.
Quando dizemos sim querendo dizer não.
Quando engolimos palavras.
Quando interrompemos lágrimas.
Quando aprisionamos o grito.
Quando nos afastamos da nossa própria natureza para correspondermos ao mundo exterior.
O corpo não está a lutar contra nós.
O corpo nunca foi o inimigo.
O corpo fala.
Fala através da contração e da expansão.
Do peso e da leveza.
Do calor e do frio.
Do cansaço e da vitalidade.
Do arrepio.
Do tremor.
Da respiração.
Da dor.
Aquilo a que chamamos sintoma pode tornar-se, então, um profundo território de escuta.
Não apenas:
“Como faço isto desaparecer?”
Mas:
“O que está a acontecer dentro de mim?”
“Onde começou esta dor?”
“O que ficou por expressar?”
“Que emoção não encontrou movimento?”
“Que parte de mim ficou aprisionada naquele acontecimento?”
Porque existe a voz que não se expressou.
O choro que contivemos.
O grito aprisionado na garganta.
A raiva diante da injustiça.
A indignação que tivemos de esconder.
A frustração.
O medo.
A vergonha.
A culpa.
A tristeza que ninguém viu.
E existem acontecimentos que terminam no tempo, mas continuam vivos dentro de nós através da forma como aprendemos a sentir, reagir, proteger-nos e relacionar-nos com a Vida.
A experiência transforma-se em memória.
A memória pode transformar-se em crença.
A crença transforma-se em padrão.
E o padrão repete-se tantas vezes que acabamos por acreditar que ele somos nós.
Mas o corpo recorda-nos.
O corpo chama-nos de volta.
Porque o corpo humano nasceu da mesma inteligência que faz uma semente romper a escuridão da Terra e procurar a luz.
Da mesma inteligência que fecha uma ferida.
Que renova.
Que pulsa.
Que respira.
Que procura incessantemente equilíbrio, movimento e Vida.
Nós pertencemos à Terra.
Não estamos separados dela.
O nosso corpo é Terra organizada em forma humana.
Água.
Minerais.
Sais.
Matéria.
Respiração.
Ritmo.
Ciclos.
E talvez uma das grandes feridas do ser humano contemporâneo tenha começado precisamente no esquecimento desta pertença.
Afastámo-nos da Terra.
Afastámo-nos dos ciclos.
Afastámo-nos do silêncio.
Afastámo-nos da escuta.
E começámos uma procura incessante no exterior.
Procuramos fora aquilo que não conseguimos reconhecer dentro.
Procuramos respostas antes de formularmos as perguntas.
Procuramos silenciar aquilo que talvez tenha surgido precisamente para ser escutado.
E quanto mais ruído existe fora, mais difícil se torna ouvir a linguagem silenciosa do corpo.
Por isso, o caminho que proponho não é uma guerra contra o corpo.
É um regresso.
Regressar ao corpo.
Regressar à Terra.
Regressar à emoção.
Regressar à memória.
Regressar ao instante em que deixámos uma parte de nós para trás.
E entrar novamente nas bibliotecas aquáticas do nosso corpo.
Porque somos profundamente água.
E simbolicamente podemos imaginar essas águas como bibliotecas vivas onde a nossa história continua a mover-se:
as palavras ditas e as não ditas,
os afetos recebidos e os recusados,
as lágrimas choradas e as contidas,
os medos,
as perdas,
os abandonos,
os desejos interrompidos,
as histórias que continuamos a repetir.
Não para procurarmos culpados.
Não para nos acusarmos por aquilo que sentimos.
Mas para devolver consciência ao lugar onde antes existia apenas automatismo.
Talvez a verdadeira transformação comece exatamente aí:
quando deixamos de perguntar apenas
“O que há de errado com o meu corpo?”
e começamos a perguntar:
“Corpo, o que estás a revelar-me?”
“Onde deixei de me escutar?”
“Que emoção continua à espera de ser reconhecida?”
“Que verdade minha ficou silenciada?”
“Onde me abandonei?”
“E o que preciso de recordar para regressar a mim?”
O corpo não é o lugar da nossa condenação.
É o lugar do nosso regresso.
É território.
É memória.
É consciência.
É natureza.
É Terra.
E talvez aquilo a que chamamos cura seja, no seu sentido mais profundo, isto:
deixar de fugir daquilo que sentimos,
regressar à Terra que somos
e devolver consciência aos lugares dentro de nós onde a Vida ficou interrompida.
Porque o corpo não está contra nós.
Nunca esteve.
Talvez tenha passado todo este tempo
a chamar-nos para casa.
João Pereira
Tecelão da Alma
Tecelão dos Tempos
Tecelão da Terra