"Silêncio" é um dos meus desenhos a lápis.
O desenho retrata uma cena trágica que mergulha nas profundezas da alma, num momento de tomada de consciência e arrependimento.
Aqui, o silêncio não é tranquilidade... é isolamento. O contraste entre luz e sombra materializa o conflito interno entre uma realidade dura e ilusões que se esvaem, entre a sensação de sufoco e o peso das preocupações, e uma vida despojada de alegria.
Na beira da cama, senta-se o velho, representando o passado e a impotência. Ao centro, a jovem está estendida, representando a beleza, o presente e o arrependimento.
No desenho, observamos uma separação visual dentro do mesmo espaço confinado. Não há toque, nem conexão visual; apenas a ausência do outro na presença um do outro, e sentimentos de arrependimento que os distanciam.
O velho está sentado como uma estátua de desespero, curvado sob o peso de anos de adversidades vividos apenas para "sobreviver"; viveu tanto que esqueceu tudo... exceto o hábito de simplesmente continuar existindo.
Ele percebe que, numa época que não é a sua e com uma mulher que não é sua, anseia pelas mesmas coisas que ela deseja... coisas que ele não possui.
Tudo o que lhe resta agora é o amargor do arrependimento e a consciência de sua própria fragilidade. Na obra, vemos a jovem abraçando a si mesma, descoberta, fugindo da realidade para um sono profundo, semelhante a um coma.
Sua postura revela um recolhimento total. As dobras do cobertor ao seu redor lembram as rugas de uma mulher idosa.
No fundo de sua alma, residem o amargor do fracasso e o vazio que espreita por trás de tudo. Seu arrependimento não é um pecado... é uma constatação fatal: a de que não podemos mudar o passado e de que o futuro talvez já esteja traçado.
A janela iluminada na obra oferece um panorama de uma vida perdida ou vendida por uma ninharia.
Lá fora, o mundo segue seu curso... enquanto, aqui dentro, o tempo estagna. A obra encarna a promessa de uma falsa esperança. Ela retrata a condição de muitos que riem, comem, amam e sonham lá fora... enquanto, aqui dentro, nada acontece, exceto o esmorecimento e uma morte lenta.
Silêncio... uma obra que retrata uma espera sem fim. Onde ambos encaram, à sua maneira, um fato: que estavam perdidos a meio caminho entre o que queriam e o que se tornaram.












