03/09/2026

LUZ


Há uma luz dormente entre aquilo que fomos e aquilo que ainda não sabemos ser.

Não ilumina caminhos.

Não promete destinos.

Fica apenas connosco, quieta, como se soubesse que há momentos em que viver

é simplesmente não desistir do próximo passo. Talvez durma na dobra de um gesto,

no lado de dentro de uma palavra,

na chávena esquecida sobre a mesa

enquanto o dia começa sem pedir licença.

Talvez more, naquela vontade inexplicável

de abrir a porta, de olhar outra vez para o mundo e descobrir que uma árvore

continua a inventar folhas sem perguntar quantos invernos passaram.

Gosto de pensar que a esperança é assim:

não uma certeza, mas uma espécie de teimosia da alma. Uma coisa pequenina que nos empurra por dentro quando já não sabemos para onde ir.

E então acontece.

Um rosto devolve-nos um sorriso.

Uma voz pronuncia o nosso nome

como se ainda houvesse futuro nele.

Uma mão encontra a nossa e, por alguns segundos, o mundo cabe inteiro na distância entre duas peles.

É aí que a luz acorda.

Sem ruído.

Sem milagres.

Apenas acende em nós a vontade de continuar. E talvez seja esse o segredo mais bonito da vida: mesmo quando pensamos

que já demos tudo de nós, há qualquer coisa cá dentro que ainda guarda um amanhã por estrear.

Uma luz dormente.

Não à espera do dia.

À espera de nós.

Carlos Cabrita_escritor ✍️

O Sentido das Palavras Carlos Cabrita

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