Há uma luz dormente entre aquilo que fomos e aquilo que ainda não sabemos ser.
Não ilumina caminhos.
Não promete destinos.
Fica apenas connosco, quieta, como se soubesse que há momentos em que viver
é simplesmente não desistir do próximo passo. Talvez durma na dobra de um gesto,
no lado de dentro de uma palavra,
na chávena esquecida sobre a mesa
enquanto o dia começa sem pedir licença.
Talvez more, naquela vontade inexplicável
de abrir a porta, de olhar outra vez para o mundo e descobrir que uma árvore
continua a inventar folhas sem perguntar quantos invernos passaram.
Gosto de pensar que a esperança é assim:
não uma certeza, mas uma espécie de teimosia da alma. Uma coisa pequenina que nos empurra por dentro quando já não sabemos para onde ir.
E então acontece.
Um rosto devolve-nos um sorriso.
Uma voz pronuncia o nosso nome
como se ainda houvesse futuro nele.
Uma mão encontra a nossa e, por alguns segundos, o mundo cabe inteiro na distância entre duas peles.
É aí que a luz acorda.
Sem ruído.
Sem milagres.
Apenas acende em nós a vontade de continuar. E talvez seja esse o segredo mais bonito da vida: mesmo quando pensamos
que já demos tudo de nós, há qualquer coisa cá dentro que ainda guarda um amanhã por estrear.
Uma luz dormente.
Não à espera do dia.
À espera de nós.
Carlos Cabrita_escritor ✍️
O Sentido das Palavras Carlos Cabrita

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