No alto de uma colina onde o vento costumava silenciar para ouvir os homens, vivia um velho mestre chamado Akil. Ele cuidava de um jardim singular, cujo centro abrigava uma fonte de águas perfeitamente calmas. Jovens de todas as aldeias vinham até ali para aprender a arte de enxergar o invisível.
Certo dia, um jovem aprendiz chegou ao jardim com os olhos inquietos e o peito arfante. O mundo lá embaixo corria rápido, cheio de vozes de metal e luzes artificiais que respondiam a tudo antes mesmo que se pudesse pensar.
— Mestre, sinto que carrego um incêndio dentro de mim. Às vezes é medo do amanhã, às vezes é uma fúria que não sei de onde vem. Como posso guiar os outros se não consigo sequer governar o meu próprio peito?
Akil não respondeu com teorias. Apenas caminhou até a fonte e entregou uma pequena pedra ao rapaz.
— Jogue-a no centro da água; ordenou o mestre.
O jovem obedeceu. A pedra rompeu a superfície e, imediatamente, círculos concêntricos se espalharam, distorcendo o reflexo do céu e das árvores. A água tornou-se turva com a areia que subiu do fundo.
— O que você vê agora?(perguntou Akil)
— Caos, mestre. A beleza do céu sumiu na água.
— Pois bem. Tente consertar a superfície.
Use as mãos, ordene que a água se acalme, force as ondas a pararem.
O aprendiz mergulhou as mãos na fonte, tentando aplacar o movimento. Quanto mais batia na água e tentava contê-la, mais ondas criava e mais a lama do fundo se misturava à superfície. Cansado, ele parou e olhou para o mestre, frustrado.
— Não posso governar o movimento da água lutando contra ele (lamentou o jovem)
Akil sorriu com profunda compaixão, sentou-se ao lado do rapaz e disse:
— Sente-se e observe.
Eles ficaram em silêncio. O vento cessou. Aos poucos, a gravidade fez a lama descer novamente para o fundo. O movimento das ondas cansou-se de si mesmo e desfez-se em calmaria. Em poucos minutos, a superfície voltou a ser um espelho perfeito, refletindo não apenas o céu, mas o próprio rosto do jovem, agora sereno.
— As tuas emoções, e as daqueles que olham para ti em busca de direção, são como esta fonte (explicou Akil). O erro da maioria é tentar combater a tempestade com mais ruído, ou tentar conter o sentimento à força. Isso apenas agita o fundo e turva a visão.
O mestre tocou o coração do jovem e concluiu:
— Educar a alma não é proibir a pedra de cair, pois a vida trará impactos. Educar é ensinar a arte de sentar-se à margem, respirar e esperar que a lama decante. Quando você se torna o espaço calmo que observa a agitação sem se misturar a ela, a clareza retorna. Só quem conhece a quietude do próprio espelho d'água pode guiar outra alma de volta ao seu centro.
Fonte: Transcender o Eu

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