18/03/2026

Orelhão


Houve um tempo que conversar custava caro, talvez por isso a gente dava tanto valor. 

Os minutos eram contados e quase sempre a ligação caía antes de se despedir. Tinha gente que já dizia "eu te amo" logo na primeira ficha pra não correr o risco de perder a resposta do outro lado. 

Depois vieram os cartões, o de 100 unidades era ostentação, artigo de luxo...mas também não durava nada, porque era muita conversa acumulada. A gente nunca conseguia falar tudo e batia uma puta tristeza quando você dizia ou ouvia "tá acabando o meu crédito".

Tinha gente que mandava cartão telefônico junto com carta de amor, a voz era um presente e escutar era um privilégio. 

A chuva chegava no meio da conversa, prejudicava a ligação e molhava tudo do joelho pra baixo, a voz ficava muito baixa e você precisava gritar. 

Já ouvi muita conversa dos outros sem querer: "aqui tá fazendo frio" "fala pra mãe que tá tudo bem, natal eu tô por aí" "as coisas tão se ajeitando devagarzinho" "eu não liguei antes porque tava sem dinheiro" "fim do ano eu chego aí" "também te amo" "também tô com saudade" "não vou desligar, deixa acabar o crédito".

Uma cápsula de fibra arredondada com cores fluorescentes, um pequeno portal pra enfrentar a saudade, a gente queria bater na molecada que estourava o fio. 

Andava quilômetros pra encontrar um telefone funcionando e, ainda assim, não encontrava. Voltava pra casa com a sensação do fracasso, a frustração de ter créditos, mas não ter o portal. 

Dormir pensando na voz, em tudo aquilo que tinha ensaiado pra dizer, e que muitas vezes, mesmo ensaiando a voz não passava pelo nó na garganta. 

Porque conversar era um privilégio, a gente daria muita coisa pra ter mais um ficha, mais dinheiro, mais cinco segundos, quando a ligação caía antes de ouvir "também te amo".

**Autor desconhecido**

Nenhum comentário:

Postar um comentário