Há muito tempo o homem desaprendeu a ouvir. Aprendeu a falar alto, a conquistar espaço, a erguer estruturas que tocam o céu e a chamar isso de grandeza. Aprendeu a marcar fronteiras e dizer “isto é meu”. Aprendeu a arrancar da terra seus frutos e a acreditar que o direito nasce da força, mas a Terra não reconhece esse idioma. Ela não compreende posse, não conhece vaidade, não se curva diante do orgulho humano. A Terra apenas oferece e observa.
Observa o filho que se lembra dela e observa também aquele que a esquece.
Ela conhece os passos de cada um. Sente a intenção que pisa seu corpo, escuta o peso da pressa, o ruído da arrogância, a vibração da ganância. Mas, também reconhece o caminhar reverente, o toque gentil, a presença humilde de quem compreende que viver sobre ela é um privilégio, não um direito adquirido.
O homem moderno teme ajoelhar-se. Confunde reverência com fraqueza e acredita que curvar-se diminui, mas é no joelho que toca a terra que o espírito se endireita. É quando a fronte encontra o chão que a alma recorda sua origem.
Antes do nome, eras pó.
Antes das certezas, eras sopro.
Antes das conquistas, eras barro e ao barro retornarás. Não como derrota, mas como reencontro.
A verdadeira força jamais nasceu da imposição.
O rio não grita e, ainda assim, esculpe montanhas.
A árvore não disputa espaço e, ainda assim, alcança o céu.
O búfalo não proclama poder e, ainda assim, sua presença faz o chão recordar respeito.
Força é aquilo que permanece sem precisar provar-se.
É aquilo que sustenta sem humilhar.
É aquilo que conhece seu lugar dentro do Grande Mistério e, por isso, não precisa dominar nada.
A doença do homem começou quando ele se julgou separado.
Quando deixou de chamar a Terra de mãe e passou a chamá-la de recurso.
Quando esqueceu que cada pedra, cada rio, cada raiz e cada criatura participam da mesma respiração sagrada e tudo o que se afasta dessa lembrança adoece. Teu corpo adoece. Tua mente adoece. Teu espírito enfraquece, porque ninguém floresce fora da verdade de sua origem.
A cura começa quando te recordas.
Quando tiras os pés da pressa e os colocas descalços sobre a vida.
Quando deixas de perguntar “o que posso tirar?” e começas a perguntar “o que posso honrar?”
Quando compreendes que existir já é receber e quem verdadeiramente recebe aprende a agradecer.
Agradece ao vento.
À chuva.
Ao alimento.
À sombra.
Ao fogo.
À noite que repousa.
Ao sol que retorna.
A gratidão é a linguagem que a Terra entende e onde ela é pronunciada com sinceridade, a cura começa.
Escuta, então: Ainda há tempo.
A Terra continua falando, no rumor das folhas.
Na dança silenciosa das nuvens.
No cheiro da chuva antes de cair.
No pulsar secreto da vida sob teus pés.
Ela chama seus filhos de volta. Não para puni-los, mas para lembrá-los: Ninguém é dono dela, mas parte dela e aquele que se recorda disso torna-se, enfim, verdadeiramente forte.
Com a força antiga que caminha em reverência, Coração de Búfalo (Guardião Lakota).
Marcos Frech

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