09/02/2026

Espelho


O espelho é uma das últimas liturgias silenciosas da vida moderna. Não apenas recolhe a imagem, mas recolhe também aquilo que a própria consciência tentou dispersar no tumulto do dia. Há nele uma espécie de tribunal mineral, uma superfície que não conhece piedade e que devolve, com absoluta frieza, aquilo que o olhar humano tenta constantemente negociar com a fantasia.

Quando nos inclinamos diante do espelho, não vemos apenas traços e contornos, vemos o desgaste. A fadiga que se entranha entre as sobrancelhas, a inquietude que marca o canto dos olhos, a palidez que denuncia batalhas íntimas travadas em silêncio. O espelho revela o que o mundo não vê, porque o mundo acredita demais na ficção das aparências. Ele devolve o medo, esse velho inquilino alojado na sombra do pensamento, sempre à espreita, sempre disposto a nos lembrar de que somos feitos de carne, dúvida e hesitação.

Há ainda as confissões que ele coleta sem exigir palavras. Cada olhar lançado à sua superfície carrega uma memória secreta, um arrependimento que não ousa nome, um desejo que se esconde sob camadas de racionalização. Ali, diante do reflexo, a alma às vezes se denuncia, e a consciência, que gosta de discursos longos, repentinamente se cala. O espelho não julga, mas expõe. E essa exposição dói.

Acima de tudo, ele devolve a vergonha. Não a vergonha moralista, mas aquela mais profunda, quase metafísica, que nasce quando percebemos que a maior parte do nosso rosto não nos pertence mais. Ele está coberto por máscaras, por adereços emocionais, por expressões treinadas para a convivência, pela conveniência social que nos separa de nossa própria nudez interior. Essas máscaras não escondem apenas a fragilidade, mas também as obscenidades do ser puro, essa porção indomesticável da alma que não se deixa polir, que insiste em permanecer crua, imperfeita, verdadeira.

A tragédia contemporânea é que nos habituamos tanto a essas máscaras que já não distinguimos onde termina o rosto e onde começa a personagem. O espelho, em sua neutralidade implacável, tenta nos devolver o original, mas o original já não responde de imediato. É preciso um esforço quase ascético para reencontrá-lo, como se buscássemos uma voz abafada sob múltiplas camadas de ruído.

No entanto, paradoxalmente, é nesse desconforto que reside a oportunidade. O espelho, ao nos envergonhar, nos devolve também a possibilidade da autenticidade. Ele nos convoca a despir o supérfluo, a confrontar a identidade não como ornamento, mas como verdade. E é apenas diante dessa verdade, dura e luminosa, que algo em nós começa a despertar.

Assim, o espelho torna-se mais que um objeto, ele é uma espécie de sacramento profano, um rito íntimo onde a alma treme, mas finalmente respira. Porque somente quando ousamos encarar a nudez interna, sem os disfarces da conveniência, é que podemos perceber que a obscenidade maior nunca esteve no rosto, mas na recusa em reconhecê-lo.

Oliver Harden

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