05/04/2026

NEM TUDO EM VOCÊ CABE NO QUE O ESPELHO ALCANÇA.


A pele mostra presença.

O corpo mostra passagem.

A matéria mostra contorno.

Mas nenhuma dessas coisas revela por inteiro o fogo silencioso que respira atrás dos olhos, a memória funda que atravessa o tempo, a centelha íntima que permanece acesa mesmo quando a vida pesa demais.

Debaixo do nome, da idade, do rosto, do cansaço, mora algo mais antigo.

Algo que não nasceu no instante em que o mundo o viu.

Algo que não termina quando uma fase se rompe.

Algo que nem a dor consegue reduzir àquilo que sangra.

Por isso certas tristezas ultrapassam o corpo.

Certas alegrias também.

Um abraço verdadeiro toca um lugar que a carne sozinha não explica.

Uma ausência continua dentro muito depois da despedida.

Uma palavra acende ou escurece regiões que ninguém vê.

A existência humana nunca foi apenas matéria.

Sempre carregou essa arquitetura invisível, essa corrente delicada, essa vibração sutil em que consciência, afeto, lembrança e mistério se entrelaçam como luz dentro de água profunda.

O mundo, tantas vezes, tenta convencer a alma de que ela é apenas peso, função, rotina, aparência, prazo, desgaste.

E então tudo se estreita.

O amor vira posse.

O tempo vira ameaça.

O sofrimento vira sentença.

A esperança vira cálculo.

Mas basta um instante de despertar para que outra verdade se levante por dentro, com a beleza serena de quem nunca foi embora.

Você não pertence por inteiro a este chão.

Você passa por ele.

Aprende nele.

Ama nele.

Chora nele.

Cresce nele.

Mas sua origem não se resume ao barro da hora presente.

Algo em você recorda o alto, mesmo quando a mente esquece.

Algo em você busca eternidade, mesmo no meio das contas, das perdas, das noites densas, dos dias que parecem pequenos demais para conter o tamanho do que se sente.

Talvez por isso a alma se comova tanto diante da luz.

Talvez por isso certos silêncios pareçam casa.

Talvez por isso algumas belezas provoquem uma saudade sem nome, como se o coração reconhecesse, nelas, um vestígio do lugar de onde veio.

Estar aqui não é ser daqui por inteiro.

É habitar uma travessia.

É vestir por algum tempo a forma.

É caminhar entre sombras e claridades sem perder, no fundo do ser, a lembrança da própria natureza.

Você não é só matéria.

Você é presença.

Você é centelha.

Você é energia viva atravessando a forma.

E quando essa verdade toca o íntimo, até o peso dos dias muda de linguagem.

Porque o corpo segue na terra.

Mas a alma, mesmo ferida, continua luminosa....

Por:: Laureano Goulart Gonçalves.

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