A pele mostra presença.
O corpo mostra passagem.
A matéria mostra contorno.
Mas nenhuma dessas coisas revela por inteiro o fogo silencioso que respira atrás dos olhos, a memória funda que atravessa o tempo, a centelha íntima que permanece acesa mesmo quando a vida pesa demais.
Debaixo do nome, da idade, do rosto, do cansaço, mora algo mais antigo.
Algo que não nasceu no instante em que o mundo o viu.
Algo que não termina quando uma fase se rompe.
Algo que nem a dor consegue reduzir àquilo que sangra.
Por isso certas tristezas ultrapassam o corpo.
Certas alegrias também.
Um abraço verdadeiro toca um lugar que a carne sozinha não explica.
Uma ausência continua dentro muito depois da despedida.
Uma palavra acende ou escurece regiões que ninguém vê.
A existência humana nunca foi apenas matéria.
Sempre carregou essa arquitetura invisível, essa corrente delicada, essa vibração sutil em que consciência, afeto, lembrança e mistério se entrelaçam como luz dentro de água profunda.
O mundo, tantas vezes, tenta convencer a alma de que ela é apenas peso, função, rotina, aparência, prazo, desgaste.
E então tudo se estreita.
O amor vira posse.
O tempo vira ameaça.
O sofrimento vira sentença.
A esperança vira cálculo.
Mas basta um instante de despertar para que outra verdade se levante por dentro, com a beleza serena de quem nunca foi embora.
Você não pertence por inteiro a este chão.
Você passa por ele.
Aprende nele.
Ama nele.
Chora nele.
Cresce nele.
Mas sua origem não se resume ao barro da hora presente.
Algo em você recorda o alto, mesmo quando a mente esquece.
Algo em você busca eternidade, mesmo no meio das contas, das perdas, das noites densas, dos dias que parecem pequenos demais para conter o tamanho do que se sente.
Talvez por isso a alma se comova tanto diante da luz.
Talvez por isso certos silêncios pareçam casa.
Talvez por isso algumas belezas provoquem uma saudade sem nome, como se o coração reconhecesse, nelas, um vestígio do lugar de onde veio.
Estar aqui não é ser daqui por inteiro.
É habitar uma travessia.
É vestir por algum tempo a forma.
É caminhar entre sombras e claridades sem perder, no fundo do ser, a lembrança da própria natureza.
Você não é só matéria.
Você é presença.
Você é centelha.
Você é energia viva atravessando a forma.
E quando essa verdade toca o íntimo, até o peso dos dias muda de linguagem.
Porque o corpo segue na terra.
Mas a alma, mesmo ferida, continua luminosa....
Por:: Laureano Goulart Gonçalves.

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