11/06/2026

POÇO



O fundo do poço raramente começa no grande desastre. Quase sempre nasce em gestos pequenos, repetidos com fidelidade triste: insistir no que fere, voltar ao lugar que humilha, justificar o que já provou ser nocivo, defender hábitos que roubam a paz e ainda chamar isso de destino. A terra vai cedendo devagar. Quando a pessoa percebe, já está cercada por paredes altas, pouca luz e muito cansaço.

A ideia do poço é dura porque não acusa apenas a queda. Ela denuncia a continuação do erro. Muita gente sofre, mas segue cavando. Cava quando alimenta a mesma revolta todos os dias. Cava quando transforma mágoa em identidade. Cava quando pede mudança, mas protege com unhas e dentes aquilo que a mantém ferida. Cava quando chama de amor o que a diminui, de lealdade o que a aprisiona, de fraqueza o que já virou comodidade moral.

O primeiro movimento de quem deseja sair não é subir de uma vez. É parar. Parar de aprofundar o dano. Parar de repetir a desculpa. Parar de oferecer a própria alma ao mecanismo que a empobrece. Esse instante parece simples, mas carrega uma grandeza silenciosa. Nele, a consciência deixa de colaborar com a própria ruína.

Outro detalhe importa: sair do poço não começa com euforia. Começa com lucidez. Menos dramatização, mais verdade. Menos promessa grandiosa, mais recusa firme ao que piora tudo. Uma escolha limpa por dia já muda a inclinação do terreno. Um limite colocado no lugar certo já impede novo desabamento. Um silêncio diante da provocação já evita que mais terra caia sobre a cabeça.

No fundo, a frase da imagem não fala apenas de superação. Fala de responsabilidade. Nem sempre foi você quem abriu o poço. Certas feridas vieram de longe. Certas dores foram herdadas. Certos golpes chegaram sem aviso. Mas continuar cavando, isso já pertence ao campo da decisão.

Cristiane Ribeiro 

A saída começa quando a mão larga a pá.

O fundo do poço raramente começa no grande desastre. Quase sempre nasce em gestos pequenos, repetidos com fidelidade triste: insistir no que fere, voltar ao lugar que humilha, justificar o que já provou ser nocivo, defender hábitos que roubam a paz e ainda chamar isso de destino. A terra vai cedendo devagar. Quando a pessoa percebe, já está cercada por paredes altas, pouca luz e muito cansaço.



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