03/06/2026

ESPELHO DE NOSSA VONTADE


Nesse espelho que vemos todos os dias a nossa própria audácia do querer, imaginando que o agora é suficiente para decidir a realidade de nossas vontades, não é compreender que essa realidade, por mais bifronte que se apresente, é o único tecido, sobre o qual, a alma pode bordar as suas esperanças.

Ao se surpreender ao olhar a si mesmo, nem sempre se vê um olhar dócil da vontade, por vezes, vê-se os espelhos rachados da alma, exposta nas salas da infância ou até nos caminhos ainda a percorrer. Percebe-se que a vida não começa com agente, mas com o fetiche da imagem em detrimento da substância.

Nesse espelho de nossa vontade nem sempre se vê a sedução do atalho ou uma adaptação contínua, porque não há garantia definitiva na repetição do mesmo resultado, pode ser flechas lançadas ao vento que ferem mais que alcança.

Pode-se ver nesse espelho de nossa vontade objetos reluzentes que apenas adornam a vida, um brilho efêmero de um rosto que ofusca a profundidade de um coração, como estrelas cadentes – de promessas onde habitam as desventuras, como a ciência com seus paradigmas provisórios.

Pode-se ver uma vida cujo tempo escorre sem nunca se tornar história, uma vida de reflexos não de luz, de ecos não de voz, um marasmo de repetições cotidianas, um consolo da ficção à disciplina, da verdade sem coerência – um capricho - não uma exigência efetiva, uma cortina que cobre apenas o cenário.

O espelho de nossa vontade é um lago silencioso onde a alma vai se olhar sem conseguir esconder suas verdadeiras formas. Nele, não aparece o rosto que se mostra ao mundo, mas aquilo que se deseja quando ninguém está vendo.

Às vezes, esse espelho é cristalino: reflete sonhos simples, intenções leves, desejos que caminham de mãos dadas com a verdade. Outras vezes, porém, ele se cobre de névoa, porque a vontade também sabe fabricar disfarces para não encarar a própria cobiça.

O espelho de nossa vontade nunca mente completamente, mesmo rachado, ele devolve fragmentos do que se é. Cada ambição, cada silêncio, cada escolha passa perante ele como um viajante diante de uma antiga janela.

E, talvez seja por isso, que algumas pessoas evitam olhar muito tempo para dentro de si: há espelhos que mostram mais do que a coragem suporta, e vontades que brilham como ouro ou queimam como fogo escondido sob as cinzas.

Não obstante a tudo isso, espera-se que o espelho da vontade reflita não apenas desejos, mas também a coragem de reconhecer a própria essência. Às vezes, uma metáfora é apenas uma lanterna pequena – mas ilumina corredores inteiros dentro da alma.  

Texto de Amazildo de Medeiros -Escritor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário