07/06/2026

COMO O HOMEM LIDA COM O MAL DENTRO DE SI


Há uma pergunta que a maioria dos homens evita formular com clareza, e não é por falta de palavras, palavras nunca faltaram ao homem, esse animal que nomeia tudo menos a si mesmo. É porque suspeita, talvez corretamente, que a resposta exigiria uma honestidade da qual não se sente capaz, e que, uma vez pronunciada em silêncio, no fundo mais íntimo do peito, já não poderia ser desfeita. A pergunta é esta: o que fazemos com o mal que encontramos dentro de nós?

Não o mal abstrato dos tratados filosóficos, não o mal histórico das guerras e das câmaras de tortura que atribuímos, com tanta comodidade, a monstros convenientemente distantes, aqueles seres que nunca dormem na mesma cama que nós, que nunca olham pelo mesmo espelho. Falo do mal íntimo, cotidiano, quase terno em sua familiaridade. A inveja que sentimos diante da felicidade alheia e que nos queima como brasa escondida sob cinza. O prazer secreto, ah, como nos envergonha admiti-lo!, diante do fracasso de alguém a quem dizemos estimar. A crueldade que se aninha em palavras cuidadosamente escolhidas para ferir sem deixar marca visível. A satisfação obscura de humilhar um semelhante sob o disfarce nobre da justiça. O ressentimento que sobrevive décadas, que atravessa inverno atrás de inverno sem perder uma grama de sua virulência. A capacidade de desejar, com uma fome que nos assusta, a destruição daquilo que nos ameaça simplesmente por existir.

O primeiro movimento do homem diante desse mal é a negação.

Mas não uma negação ingênua, não, o homem não é tão simples. É uma negação sofisticada, elaborada, quase artisticamente construída. Porque reconhecer o mal exigiria uma revisão demasiado dolorosa de tudo aquilo que acreditamos ser. E o homem, esse ser que suporta a fome, a doença, a perda dos que ama, não suporta a revisão da própria imagem. A consciência humana é uma narradora prodigiosa: ela nunca coloca o seu protagonista no papel do vilão. Por mais mesquinho que seja o ato, por mais torpe que seja o desejo, ela encontra sempre um ângulo favorável, uma luz que recompõe o rosto. Quase ninguém, eu digo quase ninguém, mas suspeito que a exceção seja raríssima, se vê como o culpado da própria história.

O orgulho é um advogado brilhante.

Ele nunca nega completamente os fatos, isso seria arriscado demais, pois os fatos teimam em persistir. Faz algo muito mais refinado, muito mais perigoso: reorganiza-os. Com uma destreza que faria inveja a qualquer sofista, transforma a inveja em senso de justiça, a covardia em prudência, a vingança em defesa da dignidade, o egoísmo em amor-próprio, a arrogância em confiança, a crueldade em sinceridade. Assim o homem não elimina o mal que vive dentro dele. Apenas lhe troca o nome, e acredita, com uma fé que nenhuma religião conseguiu produzir em proporção equivalente, que o nome novo é o verdadeiro.

É por isso que os indivíduos mais perigosos raramente são aqueles que se reconhecem imperfeitos. Quem admite sua escuridão ainda pode combatê-la: há nesse reconhecimento uma centelha de consciência que pode, às vezes, salvar. O verdadeiramente perigoso é o homem convencido de sua própria pureza moral. Esse não tem limites, porque para ele não existem limites, apenas a vontade de Deus, a necessidade histórica, o bem da humanidade, qualquer abstração grandiosa que absolva o concreto horror que pratica.

A história humana fornece provas suficientemente atrozes disso.

As maiores abominações não foram cometidas por pessoas que se consideravam perversas. Foram cometidas por pessoas que se julgavam servas do bem. O carrasco acredita possuir uma justificativa moral. A perseguição nasce da certeza de corrigir um erro. O extermínio se apresenta como higiene. O mal raramente aparece vestido como mal, ele tem mais gosto, mais estilo do que isso. Prefere vestir-se como virtude, como dever, como amor à pátria, como fidelidade a Deus. E a multidão aplaude.

Mas existe um segundo caminho.

Há homens, poucos, é verdade, e nenhum deles absolutamente tranquilo, que não negam a existência do mal dentro de si. Fazem algo diferente, algo que requer uma coragem de espécie totalmente diversa daquela que nos ensinam a admirar: contemplam o mal. Desenvolvem uma estranha e perturbadora familiaridade com suas próprias sombras. Reconhecem em si a capacidade de odiar com requinte, de mentir com elegância, de manipular com ternura, de destruir com sorriso gentil. Não porque queiram fazê-lo, ou quem sabe, às vezes, também porque querem, e isso é o que mais os apavora, mas porque compreendem que poderiam.

Esta consciência é dolorosa como uma ferida que recusa cicatrizar.

Ela dissolve a confortável fronteira entre os bons e os maus, entre os inocentes e os culpados, entre os monstros que a história registra e as pessoas comuns que vão ao mercado, que beijam os filhos antes de dormir, que choram diante de um pôr do sol. Subitamente compreendemos, e é uma compreensão que dói como epifania, não como consolo, que a fronteira entre o santo e o criminoso não atravessa geografias, religiões ou classes sociais. Atravessa cada ser humano individualmente, corta pelo meio cada coração, divide cada alma em territórios que disputam entre si sem nunca alcançar armistício definitivo.

O mesmo coração capaz de uma compaixão que estarreceria os anjos contém a possibilidade de uma crueldade que os faria recuar. A mesma inteligência que produz beleza pode, com os mesmos instrumentos, fabricar destruição. A mesma mão que embala uma criança pode, numa noite diferente, ferir um semelhante.

Reconhecer isso não conduz necessariamente ao desespero, embora conduza, antes de tudo, a uma espécie de vertigem. Pode conduzir, depois, à humildade. Não à humildade decorativa que se exibe em gestos piedosos, mas à humildade real, áspera, que não tem nada de agradável: a humildade daquele que sabe que não é melhor do que os outros, apenas diferentemente tentado.

Porque a verdadeira maturidade moral talvez não consista em acreditar na própria bondade, isso é ingenuidade, quando não é hipocrisia. Consiste em desconfiar dela. Não no sentido patológico da culpa permanente, que é um luxo narcísico disfarçado de autoconhecimento. Consiste na lucidez vigilante de quem sabe que a virtude não é um estado natural, uma herança recebida ao nascer. É uma escolha que precisa ser feita de novo a cada manhã, às vezes a cada hora. É uma disciplina tão exigente quanto qualquer arte, e como toda arte, admite recaídas, retrocessos, dias em que a obra fica feia.

O homem não nasce bom.

Também não nasce mau.

Nasce capaz, capaz de ambas as direções, e nenhuma delas está tão longe da outra quanto gostaríamos de imaginar.

É precisamente esta capacidade que torna a existência tão inquietante, tão impossível de reduzir a um sistema tranquilizador. Cada decisão contém uma escolha silenciosa entre aquilo que nos aproxima da humanidade e aquilo que nos afasta dela. Nenhuma escolha é definitiva, nem as boas nos salvam para sempre, nem as más nos condenam para sempre, embora algumas nos deixem tão longe do que éramos que o retorno pareça não mais possível. Nenhuma vitória é permanente. O combate não termina enquanto há vida.

Talvez esta seja a verdade mais difícil de engolir: o mal nunca desaparece completamente. Ele permanece. Permanece como possibilidade que aguarda o momento certo, a fadiga certa, a humilhação certa. Permanece como tentação que conhece os nossos pontos fracos melhor do que nós mesmos os conhecemos. Permanece como sombra que nos acompanha com uma fidelidade que envergonha algumas amizades.

A questão não é, portanto, como expulsá-lo, isso seria ingenuidade ou demência. A questão é como impedir que ele ocupe o trono.

Os antigos acreditavam que o heroísmo consistia em derrotar dragões que habitavam montanhas e guardavam tesouros. A experiência humana, aquela acumulada não nos livros, mas nas noites insones, nas humilhações engolidas, nos momentos em que nos vimos capazes do que nunca pensáramos, sugere algo diferente. O dragão mais persistente não mora nas montanhas. Mora no interior da consciência, conhece o seu nome, conhece a voz da sua mãe, conhece tudo aquilo que você mais deseja e tudo aquilo que mais teme perder.

E o combate mais importante não é travado contra os inimigos que o mundo nos apresenta com tanta generosidade. É travado contra aquela parte de nós que deseja dominar, humilhar, possuir, destruir, ou simplesmente, e talvez esta seja a forma mais comum, colocar o próprio interesse acima de toda consideração moral com a elegância de quem está apenas sendo razoável.

O homem lida com o mal dentro de si de muitas maneiras.

Alguns o negam com uma energia que seria admirável se aplicada a outro propósito. Alguns o justificam com uma sofisticação que quase convence. Alguns o projetam nos outros com tal eficiência que a projeção parece percepção. Alguns sucumbem a ele sem resistência aparente, ou com uma resistência que serve mais para absolvê-los do que para contê-lo.

Mas os mais sábios, e são poucos, e nenhum deles está completamente em paz, fazem algo infinitamente mais difícil do que qualquer uma dessas estratégias. Olham para o mal dentro de si. Olham com os olhos abertos, sem o conforto das névoas que a autocondescendência oferece tão prontamente. Reconhecem-no pelo nome verdadeiro, não pelo nome que lhe deram para torná-lo suportável. E, apesar dele, e apesar do cansaço de combatê-lo, e apesar da tentação de simplesmente desistir e chamar a rendição de maturidade, escolhem não lhe obedecer.

Talvez seja esta a forma mais elevada de coragem moral, não a pureza, porque a pureza pertence aos mitos e às hagiografias, não aos seres que respiram e erram e voltam e erram de novo. Não a perfeição, porque a perfeição é atributo dos mortos ou dos que nunca foram suficientemente tentados. Mas a decisão diária, silenciosa, ingrata e quase invisível de permanecer humano apesar de tudo aquilo que, dentro de nós, insiste em não o ser, e que às vezes, no escuro, quase consegue.

Oliver Harden

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