23/06/2026

QUANDO AS EMOÇÕES SÃO REPRIMIDAS DURANTE ANOS


A pessoa vai perdendo gradualmente a ligação com elas.  

Pode sentir uma tensão difusa, um peso interior, mas sem reconhecer exatamente o que se passa. Nesses casos, a simples observação da emoção — como se faz na prática da Presença — torna‑se quase impossível. Só conseguimos observar aquilo que, pelo menos em parte, conseguimos sentir. Mas se a emoção foi profundamente empurrada para dentro, fica como que escondida sob uma espessa camada de entorpecimento habitual.  

Então, o primeiro passo não é uma observação interior refinada, mas sim dar vazão à energia que ficou retida por demasiado tempo.  

Isso não é dramatizar nem descarregar a dor sobre os outros: é permitir‑se, de forma suave e consciente, que o corpo faça o que deixou de fazer há anos. Bater numa almofada, gritar em privado, deixar o corpo mover‑se livremente — tudo isto ajuda a abrir camadas antes inatingíveis.  

Mas é fundamental lembrar: expressar não liberta se faltar consciência. Sem Presença, a emoção voltará a surgir vezes sem conta, porque os pensamentos continuarão a alimentá‑la.  

A emoção e o pensamento formam um ciclo fechado: a emoção gera pensamentos, e os pensamentos intensificam a emoção.  

(Crenças ➜ pensamentos ➜ emoções)  

Se alguém simplesmente extravasar a raiva, mas não perceber como a mente cria constantemente histórias que a alimentam, pode passar anos a “trabalhar” sobre o mesmo assunto sem avançar um passo sequer.  

Por isso, expressar‑se é apenas preparação, não o objetivo final.  

Quando a energia se eleva, o essencial é ser‑se testemunha, e não participante.  

Sentir o calor, a densidade, a vibração e, ao mesmo tempo, saber: “Isto é energia, não sou Eu”.  

Nesse instante, a emoção deixa de ser uma história pessoal e torna‑se apenas um movimento que acontece no corpo.  

E algo surpreendente acontece: se permitir que ela exista por completo, sem resistência, pode transformar‑se subitamente. A raiva torna‑se força pura, o medo transforma‑se em clareza e a tristeza ganha profundidade.  

Por vezes, depois de expressar uma emoção, surge uma vaga intensa de energia. Não é um acesso de agressividade, mas sim força vital libertada — que antes estava apertada em nós. Essa energia pode ser direcionada para a ação: movimento, criação, organização, construção.  

Mas se agir levado por um resto de irritação, acaba por poluir o espaço — tanto fisicamente como energeticamente. Por isso, a ação deve nascer da Presença, não de tensões residuais.  

Com o tempo, à medida que a Presença se fortalece, surge a escolha: quando a emoção sobe, sente‑se se é necessário expressá‑la ou se ela pode simplesmente dissolver‑se na Atenção Pura.  

Às vezes basta observar, e a energia transforma‑se sem necessidade de qualquer manifestação exterior. Noutras alturas, o próprio corpo indica que precisa de se mover.  

O principal é não reprimir.  

Reprimir faz adoecer — tanto emocional como fisicamente.  

Mas também não se deixe absorver pela emoção, nem se confunda com ela.  

Este é o caminho da maturidade: permitir que a energia exista, mas permanecer Aquele que a Observa.  

Eckhart Tolle  

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