Existe uma prisão mais antiga do que qualquer cela construída pelo homem. Ela não possui grades, muralhas ou carcereiros, mas acompanha cada passo da existência. É a prisão do próprio eu.
Desde a inscrição délfica, “conhece-te a ti mesmo”, o pensamento ocidental aprendeu que a maior viagem não é aquela que atravessa oceanos, mas aquela que atravessa a consciência. Contudo, há uma pergunta ainda mais inquietante do que conhecer a si mesmo: será possível libertar-se de si mesmo?
À primeira vista, a resposta parece negativa. Somos feitos de memórias que não escolhemos, de traumas que não autorizamos, de desejos que surgem antes mesmo que a razão os examine. Somos herdeiros de uma biografia que continua escrevendo o presente. Como observava Arthur Schopenhauer, o homem pode fazer aquilo que deseja, mas não pode desejar aquilo que deseja. Há, portanto, uma força subterrânea conduzindo grande parte de nossas decisões.
Entretanto, reduzir o ser humano a um prisioneiro absoluto de sua própria constituição seria negar aquilo que talvez represente sua característica mais extraordinária: a capacidade de voltar-se contra si mesmo. O homem é o único ser que consegue observar os próprios pensamentos como se pertencessem a um estranho. Essa estranha duplicidade da consciência transforma cada indivíduo em personagem e observador da própria história.
Søren Kierkegaard compreendia que o desespero nasce exatamente da dificuldade de reconciliar-se consigo mesmo. Já Friedrich Nietzsche sugeria que a grande tarefa da existência não consiste em descobrir quem somos, mas em superar continuamente aquilo que fomos. Em ambos, a liberdade não significa abandonar o eu, mas impedir que ele se transforme em destino.
Talvez a verdadeira escravidão não seja possuir uma identidade, mas acreditar que ela é definitiva. Quantas pessoas passam a vida repetindo personagens que já não lhes pertencem? Continuam sendo a criança rejeitada, o adolescente inseguro, o adulto que busca aprovação incessantemente. Não vivem o presente, apenas administram os escombros emocionais do passado.
Mas existe um paradoxo inevitável. Toda tentativa de fugir de si mesmo é realizada… por si mesmo. Não há um lugar para onde escapar. O fugitivo e o perseguidor habitam o mesmo corpo, compartilham a mesma memória e utilizam a mesma consciência. O eu constrói a fuga e, simultaneamente, acompanha cada passo do fugitivo.
Talvez, então, a liberdade não consista em abandonar quem somos, mas em deixar de obedecer cegamente àquilo que acreditávamos ser. O eu não precisa desaparecer, precisa perder sua tirania. A consciência amadurece quando deixa de confundir identidade com essência, hábito com destino, passado com condenação.
Ser livre de si mesmo talvez seja impossível. Mas tornar-se maior do que si mesmo, isso parece ser o verdadeiro projeto da existência. Não porque o homem consiga escapar da própria alma, mas porque pode impedir que ela se torne uma prisão perpétua.
A maior liberdade não é viver sem um eu. É possuir um eu que já não governa a existência como um déspota, mas a acompanha como um humilde companheiro de viagem. É nesse instante que o homem deixa de ser apenas o produto daquilo que viveu e começa, finalmente, a tornar-se autor daquilo que ainda pode ser.
Oliver Harden

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