Houve um tempo em que a humanidade caminhava descalça sobre a Terra com reverência.
Não porque possuísse mais conhecimento, mas porque ainda me lembrava que a Mãe Terra era um ser vivo e que toda forma de vida merecia respeito.
As árvores não eram paisagem.
Eram os Anciãos da Floresta, guardiões da memória do tempo, cujas raízes abraçavam o coração da Terra e cujos ramos sustentavam as preces dirigidas ao Grande Espírito.
As pedras não eram simples rochas.
Eles eram os ossos sagrados da Mãe Terra, testemunhas silenciosas da passagem de inúmeras gerações e depositárias de histórias que só o silêncio pode ouvir.
O vento não era barulho.
Era o sopro do Grande Espírito percorrendo montanhas, rios e vales, levando sussurros para aqueles que mantinham um coração humilde e um olhar desperto.
A chuva não foi um incómodo.
Era uma bênção. Cada gota descia como um ato de amor, purificando a terra, despertando as sementes adormecidas e nos lembrando que toda vida renasce quando aprende a receber.
O fogo não era apenas calor.
Era o avô que transformava, iluminava e ensinava que tudo o que termina pode se tornar o começo de uma nova existência.
Os rios não eram apenas água.
Eram as veias da Terra, levando a força da vida para todos os seres, ensinando-nos que quem corre com consciência encontra sempre o caminho.
As crianças chegam ao mundo lembrando dessa antiga aliança.
Eles observam com espanto, conversam com as árvores, maravilham-se com as pedras, perseguem o vento e sorriem para a chuva porque ainda reconhecem a linguagem sagrada da criação.
Com o passar do tempo, o barulho do mundo costuma cobrir essa memória.
Aprendemos a nomear as coisas, mas esquecemos de senti-las.
Aprendemos a explicar a vida, mas deixamos de contemplar o seu mistério.
Os povos ancestrais ensinaram primeiro a ficar calados.
Porque eles sabiam que o conhecimento nasce da observação, mas a sabedoria nasce da escuta profunda.
Quem ouve a Terra aprende paciência.
Quem ouve o vento aprende liberdade.
Quem ouve a água aprende humildade.
Quem ouve o fogo aprende transformação.
E quem ouve o seu próprio coração descobre que o Grande Espírito nunca parou de falar; somos nós que, muitas vezes, deixamos de ouvir.
Talvez a verdadeira evolução não esteja em conquistar o mundo, mas em lembrar o pacto sagrado que nossos antepassados honravam a cada amanhecer.
Voltar a andar devagar.
Agradeça novamente antes de receber.
Abençoar novamente a água, o alimento, o fogo e a Terra.
Reconhecendo que não estamos separados da natureza, porque somos uma expressão dela.
Quando essa memória desperta, a alma volta para casa.
E então entendemos que o verdadeiro caminho espiritual não nos leva longe da Terra...
Ensina-nos, mais uma vez, a caminhar sobre ela com amor, humildade e profunda reverência.
Abuela Curandera

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