19/09/2026

VOCÊ TEM O PARCEIRO QUE TE ALCANÇOU


Em um relacionamento, ninguém é apenas vítima. Somos cúmplices das escolhas que fizemos — como naquela frase certeira: “Aceitamos o amor que achamos merecer.”

Muitos se queixam das falhas do outro, como se o companheiro fosse o único problema. Mas terapeutas costumam confrontar com perguntas desconfortáveis: “Por que você escolheu essa pessoa?” e “Por que ainda está com alguém que considera neurótico, tóxico ou limitado?”

A resposta, por mais dura que seja, é simples: porque foi essa pessoa que te alcançou. Porque, no fundo, você acredita que é isso que merece.

Se você estivesse em outro nível emocional, teria atraído alguém à altura. Mas quem respondeu ao seu chamado? Lembra daquela música que diz “chinelo que eu atiro, não vou levantar de novo”? Pois imagine casar com a versão emocional de um chinelo velho. Quem vai se animar a levantá-lo? Um sapato elegante e refinado? Claro que não. Quem veio? Outro chinelo.

Chinelos vêm aos pares.

Seria estranho ver alguém calçando um chinelo num pé e um sapato sofisticado no outro. Assim também é no amor: não se vê uma pessoa íntegra, equilibrada e lúcida dividindo a vida com alguém emocionalmente desajustado.

Mas muitos, sem capacidade de autocrítica, se veem como vítimas dos defeitos alheios. Em vez de olhar para dentro, projetam suas próprias feridas no outro. Queixam-se do espelho, sem notar que estão vendo a si mesmos. E se ainda insistirem que merecem um amor de cristal, viverão a frustração de sempre se deparar com a realidade: só atraem o que emanam.

Lembrei de um conto chamado “Perfeição”:

 Nasrudin contou ao amigo que, na juventude, buscou a mulher perfeita. Em Damasco, encontrou uma mulher linda, mas ingênua. Em Isfahan, uma sábia, mas sem beleza. No Cairo, enfim, conheceu uma moça linda, sábia e consciente. O amigo perguntou por que não se casou com ela. E Nasrudin respondeu: “Porque, infelizmente, ela também procurava um homem perfeito.”

Nasrudin achava-se um príncipe, até que se deparou com uma princesa de verdade, que mostrou a ele uma verdade incômoda: não era suficiente para uma mulher como ela.

Em vez de viver buscando o par ideal, precisamos trabalhar para ser o par ideal. E isso começa com uma palavra: autocrítica.

Sem ela, repetimos os mesmos erros, carregamos as mesmas “baratas emocionais” de um relacionamento para outro, culpando o outro pelas falhas que também são nossas.

Casais desequilibrados não podem criar filhos emocionalmente íntegros. Já imaginou a riqueza emocional de uma criança que cresce vendo os pais resolverem diferenças com maturidade, sem ofensas, sem culpa, sem medo? Esse é o verdadeiro legado.

Construamos, então, uma cultura de autoconhecimento e responsabilidade afetiva. Só assim estaremos prontos para amar — e ser amados — de verdade.

Porque no amor, não recebemos o que sonhamos, recebemos o que conseguimos sustentar.

Você tem o parceiro que te alcançou. E só alcança o amor que está pronto para carregar.

D.A.

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