ALGUMAS DESPEDIDAS ACONTECEM COM A PESSOA AINDA RESPIRANDO
Existe um luto que não recebe flores, não tem velório e quase nunca é compreendido por quem olha de fora. Ele começa quando alguém continua vivo no mundo, mas precisa deixar de viver dentro de nós.
É uma morte sem corpo. Morrem os planos feitos a dois, os hábitos, as mensagens esperadas, os lugares que carregavam significado. Morre também a versão de nós que ainda acreditava que aquela relação poderia se tornar aquilo que nunca conseguiu ser.
A memória resiste. Devolve cenas bonitas, frases antigas, promessas interrompidas. O coração visita o passado procurando uma saída que já não mora ali.
Mas permanecer ligado ao que nos destrói também é uma forma de desaparecimento. Certos vínculos exigem tanto para continuar que, aos poucos, sacrificamos a própria paz, a dignidade e a alegria apenas para manter de pé algo que já terminou por dentro.
Sepultar alguém vivo na própria história não é desejar-lhe mal. É devolver essa pessoa ao lugar ao qual ela pertence: fora do centro da sua vida.
Algumas despedidas precisam ser firmes porque a saudade sabe maquiar o que doeu. Ela suaviza ausências, apaga noites ruins, embeleza o que feriu. Por isso a lembrança precisa caminhar ao lado da lucidez.
Você não precisa odiar para partir. Não precisa transformar amor em desprezo para fechar uma porta. Pode guardar o que foi belo sem continuar oferecendo morada ao que deixou de fazer bem.
A despedida mais madura não é aquela em que nada sentimos.
É aquela em que sentimos tudo e, mesmo assim, escolhemos não voltar.
Algumas pessoas seguem vivas no mundo. Mas, para que a nossa vida volte a respirar, elas precisam finalmente descansar no passado.
Miguel Anjo

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