Viemos da savana, nus, frágeis, acuados pela noite, pela fome, pelos animais, pelo frio, pelas doenças que não compreendíamos. Tudo podia nos matar. E aquele animal assustado aprendeu a cooperar, a falar, a cuidar dos seus mortos, a transmitir memória, a cultivar a terra, a construir cidades, a escrever, a curar, a dividir o átomo, a decifrar o genoma, a sair do planeta e olhar a Terra de fora.
Depois de tudo isso, ainda temos medo uns dos outros.
Há uma obscenidade nisso.
A violência nunca saiu de nós. O medo, a vaidade, a inveja, o desejo de domínio, a crueldade e a embriaguez do poder continuam aqui. Mas aqui também estão o cuidado, a amizade, a compaixão, a criação, a beleza, a capacidade de sofrer por alguém que não somos nós.
O problema é que já não podemos alegar ignorância.
Sabemos o que a fome faz com uma criança. Sabemos o que a guerra faz com uma cidade. Sabemos como o medo fabrica obediência, como a humilhação produz ressentimento, como a mentira prepara a violência. Sabemos curar, alimentar, educar, prevenir, distribuir, comunicar. Temos ciência, tecnologia, riqueza e capacidade material em escala que nenhuma geração anterior conheceu.
Por isso, grande parte da miséria contemporânea já não nasce do que não podemos fazer, mas do que aceitamos não fazer. E, pior, do que organizamos para continuar não fazendo.
Nossos ancestrais temiam feras escondidas no escuro. Nós tememos guerras que fabricamos, mercados que desenhamos, máquinas que construímos, instituições que corrompemos, tecnologias que soltamos no mundo sem saber governar.
Conquistamos poderes de deuses com nervos de primatas.
Somos capazes de observar galáxias a bilhões de anos-luz e incapazes de conviver com o vizinho; capazes de transplantar um coração e dispostos a negar humanidade a quem nasceu do outro lado de uma fronteira.
Depois de tudo o que aprendemos, continuar produzindo fome, abandono, medo e brutalidade não é destino, nem fatalidade, nem natureza.
É fracasso de civilização.
Fonte: A caminhada

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