O espiritismo, às vezes, é como uma chave.
Mas tem gente que passa a vida inteira com a chave na mão…
E nunca gira a fechadura por dentro.
Eu entrei num centro espírita em 2009 como quem entra numa casa em noite de tempestade.
Sem pose.
Sem resposta.
Com a alma tremendo de ansiedade, luto e um vazio que a lógica não abraçava.
Eu queria entender.
Eu queria nomear a dor.
Eu queria um mapa.
E eu estudei.
Li Kardec.
Respirei Emmanuel.
Chorei com André Luiz.
Sentia, sim, um fôlego novo chegando.
Como se a esperança fosse um cobertor silencioso.
Mas por muitos anos eu confundi fôlego com transformação.
Confundi informação com cura.
Confundi “saber” com “ser”.
Porque o espiritismo estava na minha cabeça.
E cabeça é um lugar barulhento.
O coração, não.
O coração é um lugar de demora.
Eu falava de amor ao próximo.
Eu repetia frases bonitas.
Eu citava lições como quem cita notícia.
E, por dentro, eu ainda era duro.
Não perdoava com facilidade.
Não acolhia com humildade.
Não escutava sem preparar uma resposta.
Não admitia meus próprios preconceitos.
Não via minha vaidade com o nome certo.
Não percebia o quanto eu gostava de parecer "esclarecido".
E tem uma vaidade que é mais perigosa do que todas.
A vaidade de achar que já virou luz.
Eu julgava.
Às vezes, em silêncio.
Às vezes, com aquele olhar que não fala, mas empurra.
Eu pensava, bem no fundo: "Tem gente que escolheu sofrer".
Como se a dor do outro fosse sempre uma culpa bem arrumada.
Eu me sentia “do lado certo” da vida.
E isso me deixava frio.
Até que em 2017 eu ouvi uma frase que não veio pra me ensinar.
Veio pra me acordar.
"Muita gente entra no espiritismo, mas o espiritismo não entra nelas."
Na hora, não foi uma ideia.
Foi uma pancada mansa.
Daquelas que não humilham.
Só quebram o orgulho na medida certa.
Eu lembro como se fosse agora.
A sala simples.
O cheiro de café velho misturado com passe e silêncio.
As cadeiras alinhadas como quem diz: aqui ninguém é mais do que ninguém.
E eu ali, sentado, percebendo uma coisa dolorosa.
Eu tinha doutrina na fala.
Mas não tinha doçura no gesto.
Eu tinha estudo.
Mas não tinha mansidão.
Eu tinha argumentos.
Mas não tinha colo.
Foi quando eu entendi que o espiritismo não é uma prateleira de livros.
É uma reforma íntima que começa quando a gente para de apontar o outro…
E começa a se enxergar sem maquiagem.
O verdadeiro espiritismo não grita.
Ele sussurra.
Ele não faz vitrine.
Ele faz limpeza.
Ele me ensinou que espírito não tem cor.
Não tem gênero.
Não tem status.
E que a gente só começa a entender isso quando olha uma pessoa inteira…
E não só a etiqueta que ela carrega.
Porque não adianta decorar páginas se eu não aprendo a calar meus julgamentos.
Não adianta saber o nome das leis morais se eu ainda trato alguém com impaciência.
Não adianta falar de caridade se eu ainda economizo ternura.
Hoje eu tento menos convencer.
E tento mais acolher.
Eu tento ouvir sem corrigir.
Eu tento ajudar sem me exibir.
Eu tento lembrar que todo mundo está lutando uma batalha que não aparece no crachá.
E quando eu falho, eu volto pro básico.
Pro mais sagrado do cotidiano.
Uma prece curta.
Um pedido simples.
Uma vontade sincera de ser melhor do que eu fui ontem.
Porque ser espiritual não é subir.
É descer.
Descer do pedestal.
Descer da superioridade.
Descer até ficar do tamanho do amor.
Se você também entrou numa religião, num caminho, numa doutrina…
E mesmo assim sente que algo ainda falta…
Talvez não falte mais conhecimento.
Talvez falte passagem.
Deixar a fé sair da mente.
E entrar na vida.
Na forma como você olha.
Na forma como você responde.
Na forma como você trata quem pensa diferente.
Quando a espiritualidade entra na gente, el
a não faz barulho.
Ela faz espaço.
E o sinal mais bonito de que ela entrou é simples.
A gente continua humano.
Só que mais manso.
Mantra.
Amor não é o que eu sei. É o que eu deixo atravessar.
José Boreall

Nenhum comentário:
Postar um comentário