29/09/2026

O TAMBOR DAS ÁGUAS SAGRADAS


Há uma memória que não foi escrita em pedra.

Foi escrita em água.

Corre desde antes dos nossos nomes,

atravessa montanhas, florestas e corpos,

desce pelas cascatas, repousa nos lagos,

serpenteia nas ribeiras e nos rios

até regressar ao ventre profundo dos oceanos.

O Tambor das Águas Sagradas nasce em memória de todas as Guardiãs das Águas.

Das Abuelas.

Das Anciãs.

Das Curandeiras.

Das mulheres antigas que escutaram a linguagem da água e aprenderam a reconhecer nela uma Medicina.

As que caminharam junto dos rios.

As que rezaram diante das nascentes.

As que recolheram plantas nas margens.

As que lavaram corpos, feridas, nascimentos e mortes.

As que conheceram a água não apenas como elemento, mas como presença, memória, movimento e Vida.

Este tambor guarda simbolicamente todas as águas.

A água salgada dos oceanos, ventre profundo da Terra.

A água que caminha nos rios, levando consigo histórias e territórios.

A água que se precipita nas cascatas, recordando-nos a força de entregar e deixar cair.

A água silenciosa dos lagos, espelho onde o céu encontra a Terra.

A água pequena e persistente das ribeiras, que encontra passagem mesmo entre as pedras.

A água escondida das nascentes, que emerge do ventre escuro da Terra para voltar a ver a luz.

E também a água que vive dentro de nós.

A água do ventre.

A água do sangue.

A água das lágrimas.

A água que envolve a vida antes do primeiro respirar.

No centro, a Guardiã das Águas permanece.

Anciã sem idade.

Abuela de muitas gerações.

Não pertence a um único povo nem a um único tempo.

Representa todas aquelas que souberam aproximar-se da água com respeito e escutá-la antes de lhe pedir alguma coisa.

Sobre ela, a Tartaruga recorda a Terra antiga, o tempo lento, a sustentação e a memória primordial.

A Baleia atravessa as águas profundas como guardiã de uma voz antiga — aquela que não necessita de palavras para atravessar grandes distâncias.

E do vaso sagrado nasce a água.

Água que transborda.

Água que percorre.

Água que limpa.

Água que alimenta.

Água que transforma.

Este tambor não pretende representar apenas a beleza das águas.

É uma homenagem à sua SACRALIDADE.

Porque onde existe água, existe possibilidade de vida.

E talvez a antiga Medicina das Guardiãs nos recorde precisamente isto:

Não somos donos da Água.

Somos seus filhos,

seus corpos temporários,

seus guardiões durante o breve tempo em que caminhamos sobre a Terra.

Que ao tocar este tambor possamos lembrar as águas exteriores e as águas interiores.

Que possamos agradecer aos Oceanos.

Aos Rios.

Às Cascatas.

Aos Lagos.

Às Ribeiras.

Às Nascentes.

E a todas as Abuellas, Anciãs e Curandeiras que, geração após geração, mantiveram viva a memória de que:

CUIDAR DAS ÁGUAS

É CUIDAR DA PRÓPRIA VIDA.

PALAVRA-MEDICINA

FLUIR

PERGUNTA INICIÁTICA

Que águas dentro de mim precisam voltar a encontrar o seu caminho?

O TAMBOR DAS ÁGUAS SAGRADAS

Em memória das Guardiãs das Águas.

Das que vieram antes.

Das que ainda guarda

E das que virão depois de nós.

João Pereira

Tecelão da Alma

Roots of Creation

Ancestralia Store

Nenhum comentário:

Postar um comentário