Há uma memória que não foi escrita em pedra.
Foi escrita em água.
Corre desde antes dos nossos nomes,
atravessa montanhas, florestas e corpos,
desce pelas cascatas, repousa nos lagos,
serpenteia nas ribeiras e nos rios
até regressar ao ventre profundo dos oceanos.
O Tambor das Águas Sagradas nasce em memória de todas as Guardiãs das Águas.
Das Abuelas.
Das Anciãs.
Das Curandeiras.
Das mulheres antigas que escutaram a linguagem da água e aprenderam a reconhecer nela uma Medicina.
As que caminharam junto dos rios.
As que rezaram diante das nascentes.
As que recolheram plantas nas margens.
As que lavaram corpos, feridas, nascimentos e mortes.
As que conheceram a água não apenas como elemento, mas como presença, memória, movimento e Vida.
Este tambor guarda simbolicamente todas as águas.
A água salgada dos oceanos, ventre profundo da Terra.
A água que caminha nos rios, levando consigo histórias e territórios.
A água que se precipita nas cascatas, recordando-nos a força de entregar e deixar cair.
A água silenciosa dos lagos, espelho onde o céu encontra a Terra.
A água pequena e persistente das ribeiras, que encontra passagem mesmo entre as pedras.
A água escondida das nascentes, que emerge do ventre escuro da Terra para voltar a ver a luz.
E também a água que vive dentro de nós.
A água do ventre.
A água do sangue.
A água das lágrimas.
A água que envolve a vida antes do primeiro respirar.
No centro, a Guardiã das Águas permanece.
Anciã sem idade.
Abuela de muitas gerações.
Não pertence a um único povo nem a um único tempo.
Representa todas aquelas que souberam aproximar-se da água com respeito e escutá-la antes de lhe pedir alguma coisa.
Sobre ela, a Tartaruga recorda a Terra antiga, o tempo lento, a sustentação e a memória primordial.
A Baleia atravessa as águas profundas como guardiã de uma voz antiga — aquela que não necessita de palavras para atravessar grandes distâncias.
E do vaso sagrado nasce a água.
Água que transborda.
Água que percorre.
Água que limpa.
Água que alimenta.
Água que transforma.
Este tambor não pretende representar apenas a beleza das águas.
É uma homenagem à sua SACRALIDADE.
Porque onde existe água, existe possibilidade de vida.
E talvez a antiga Medicina das Guardiãs nos recorde precisamente isto:
Não somos donos da Água.
Somos seus filhos,
seus corpos temporários,
seus guardiões durante o breve tempo em que caminhamos sobre a Terra.
Que ao tocar este tambor possamos lembrar as águas exteriores e as águas interiores.
Que possamos agradecer aos Oceanos.
Aos Rios.
Às Cascatas.
Aos Lagos.
Às Ribeiras.
Às Nascentes.
E a todas as Abuellas, Anciãs e Curandeiras que, geração após geração, mantiveram viva a memória de que:
CUIDAR DAS ÁGUAS
É CUIDAR DA PRÓPRIA VIDA.
PALAVRA-MEDICINA
FLUIR
PERGUNTA INICIÁTICA
Que águas dentro de mim precisam voltar a encontrar o seu caminho?
O TAMBOR DAS ÁGUAS SAGRADAS
Em memória das Guardiãs das Águas.
Das que vieram antes.
Das que ainda guarda
E das que virão depois de nós.
João Pereira
Tecelão da Alma
Roots of Creation
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