23/02/2026

Pelourinho


Nas ladeiras do Pelourinho, uma mãe de santo paralisou um ritual ao olhar para a porta. Ela pediu reverência absoluta, não para um orixá, mas para o espírito de um médico que morreu na miséria. Ele andava entre os doentes carregando chagas que não eram dele. A entidade revelou que, em vida, ele não prescrevia remédios. Ele transferia a dor de quem não suportava mais sofrer para o próprio corpo. 

Ele atendia os esquecidos. Aqueles que o sistema repudiava. Quando os recursos acabavam e as feridas dos pacientes apodreciam, ele fazia algo além da medicina. Ele segurava as mãos do doente, fechava os olhos e pedia: "Deixe que doa em mim". Ninguém entendia por que aquele médico outrora saudável começou a definhar. Seu corpo foi tomado por feridas inexplicáveis.

Sua respiração falhou. Ele absorveu tanto a agonia do mundo que o próprio coração parou, exausto. Morreu em um catre sujo, sozinho. O fracasso absoluto para os olhos do mundo. Mas quando a mãe de santo o viu no plano espiritual, o terreiro inteiro pareceu pequeno para o tamanho da sua luz. Ele não tinha marcas. Não tinha cicatrizes

Cada ferida que ele absorveu em vida havia se transformado em um ponto de luz pulsante em sua aura. Ele vestia um jaleco de pura energia curativa, tão intenso que quem se aproximava deixava de sentir dor imediatamente. Eles acharam que a doença o derrotou. Mas ele usou a doença para derrotar o egoísmo.

Quantas vezes nós fugimos da dor do outro porque estamos ocupados demais blindando nosso próprio conforto? Temos pavor de nos envolvermos, de sentirmos, de ajudarmos. Aquele médico não tentou se salvar. A luz não nasce de uma vida imaculada e isenta de sofrimento. A luz nasce de quantos pedaços seus você esteve disposto a dar para consertar alguém.

Fonte:Chico - Cartas de Paz e Consolação 


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