19/12/2025

ALMA


A alma não habita o corpo como quem visita uma casa. Ela o permeia. Ela irrompe. Ela inunda o lado de dentro sem rogar licença, invisível aos olhos, mas soberana. Ela é o vestígio que resta quando o ruído emudece. É a permanência no instante em que perdemos o próprio nome e depois regressamos, como quem tateia um corredor de sombras. A alma é esse retorno mudo. Não como troféu, mas como substância.

A alma é registro sem tinta, marca sem derme, nostalgia sem retrato. Ela arquiva o que a razão tenta renegar e o que a carne teima em reviver. Ora clama em sobressaltos de angústia, ora suspira em sopros de intuição, e por vezes, apenas pesa. Pois nem todo abismo é leve. A alma não é refúgio de brandura, é território de verdade nua.

Há quem a reduza a pura luz, mas a alma tem a vastidão do oceano. Possui tona e profundeza. Tem calmaria e voragem. Não cabe em sentenças breves, tampouco em teorias adornadas. A alma é o arrepio de reconhecer a velha dor em novas vestes e, ainda assim, nas entranhas, sentir a urgência de romper o ciclo.

A alma é também bússola. Ela imanta para o real, mesmo quando a realidade fere. Ela desassossega na traição, comprime na fuga e redime na escolha íntegra. Não é punição, é órbita. O que chamam de destino é, amiúde, a alma insistindo em te repatriar — não para paredes de tijolo, mas para a morada de si mesmo.

E ao indagar o que é a alma, você pergunta, no fundo, por que ainda pulsa em ti algo que não sucumbiu. A alma é isto: uma chama antiga que persiste, que apreende, que naufraga e se refaz, que tomba e rememora. Ela não é imaculada. Ela é viva. E viver, plenamente, é quando a alma cessa de pedir licença para ser e passa a respirar em totalidade.

Luz e Consciência 

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