20/01/2026

Leito


O leito 04 da UTI Oncológica era o mundo do Seu Antônio há três meses. Ao redor dele, máquinas frias, bipes constantes e o cheiro de álcool. Mas havia uma exceção naquele cenário estéril: a enfermeira Letícia.

Letícia era do plantão da madrugada. Aquela hora em que o hospital fica silencioso e as almas parecem transitar mais livremente. Ela não apenas medicava. Ela arrumava o lençol milimetricamente, para não fazer dobra nas costas dele. Ela passava hidratante nas mãos ressecadas dele. E, o mais estranho para a família: ela cantava baixinho. Músicas antigas, hinos, cantigas de roda. Mesmo com Seu Antônio sedado, em coma induzido.

A filha dele, Carla, às vezes comentava com o marido: — "Essa enfermeira é meio exagerada, né? Ele nem tá ouvindo. Ela se apega demais, vai sofrer quando ele for." Carla achava que aquilo era "perda de tempo". Mal sabia ela.

A hora da partida chegou numa terça-feira, às 03h45 da manhã. O telefone de Carla tocou. Era o hospital. — "Venham rápido. Os sinais estão caindo." Carla correu. Furou sinal vermelho, rezou, gritou no carro. Mas quando chegou, o leito 04 estava quieto. O monitor estava desligado. Seu Antônio já tinha ido.

Carla desabou sobre o peito do pai. — "Me perdoa, pai! Eu te deixei sozinho! Você morreu no escuro, sem ninguém segurando sua mão! Eu sou a pior filha do mundo!" A culpa de não estar no último suspiro é um ácido que corrói quem fica. Carla voltou para casa destruída, carregando o peso de ter "abandonado" o pai na hora H.

Dois dias depois do enterro, a campainha tocou na casa de Carla. Era fim de tarde. Ao abrir a porta, Carla viu uma mulher parada. Estava sem maquiagem, com o cabelo preso num coque frouxo, vestindo jeans e camiseta, com o rosto marcado de cansaço. Era Letícia, a enfermeira.

— "O que houve? Esquecemos algum documento no hospital?" — Carla perguntou, seca.

Letícia sorriu tímida. — "Não. Eu acabei meu plantão agora. Estou há 24 horas acordada. Mas eu não conseguia ir pra casa dormir sem te falar uma coisa."

Carla convidou-a para entrar. Letícia sentou no sofá e segurou as mãos da filha enlutada.

— "Eu ouvi você gritando no corredor que ele morreu sozinho. Eu vim aqui pra te dizer: ele não estava sozinho."

Carla começou a chorar. Letícia continuou:

— "Quando os sinais dele começaram a cair, eu sabia que vocês não chegariam a tempo. Eu não chamei o médico para procedimentos invasivos que só machucariam. Eu puxei a cadeira. Eu segurei a mão dele com as minhas duas mãos. Eu fiz carinho na testa dele, do jeito que ele gostava. E eu cantei."

— "Cantou?"

— "Cantei 'Aquarela', que ele me disse uma vez que era a preferida dele. Eu disse no ouvido dele: 'Pode ir, Seu Antônio. A Carla te ama. A missão tá cumprida. Vai em paz'. Ele apertou minha mão, Carla. Ele me ouviu. Uma lágrima escorreu e o coração parou. Foi sereno. Foi doce."

Carla olhava para aquela mulher exausta, de olheiras profundas, e pela primeira vez não viu uma "funcionária exagerada". Viu um instrumento de Deus.

— "Eu vim aqui pra você tirar essa culpa do peito. Ele não partiu na solidão. Ele partiu recebendo amor. Eu fui a sua representante naquele momento."

Carla abraçou a enfermeira e chorou o choro da cura. Ela entendeu que o "apego" de Letícia não era exagero. Era humanidade. Era a espiritualidade agindo através de mãos calejadas pelo trabalho.

A lição é para honrar quem cuida: Muitas vezes, pedimos a Deus que envie anjos para cuidar dos nossos doentes. E Deus envia. 

Mas eles não têm asas nem tocam harpa. Eles usam jaleco, Crocs, têm olheiras de quem não dorme e ganham pouco. Se você não pôde estar lá no final, confie: a equipe que estava lá foi a família que Deus escolheu para aquele minuto sagrado. 

Ninguém morre sozinho quando há amor por perto, mesmo que seja o amor de um estranho que segura a mão.

Você já encontrou um profissional de saúde que foi um verdadeiro anjo na vida da sua família?

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