13/01/2026

VOCÊ


Você não é a meta que te cobra, nem o cuidado que te consome, nem o cansaço que te dobra

Você é quem segue em pé sustentando tudo isso ao mesmo tempo.

Tem dias em que você acorda antes do despertador. A cabeça já está ligada, o corpo ainda não. O dia começa com uma lista invisível que ninguém vê, mas que pesa como se estivesse escrita na sua pele. Metas, indicadores, entregas, prazos, mensagens que chegaram fora do horário, cobranças que não pedem licença.

Antes do café, você já está resolvendo problemas que nem são seus.

No meio disso tudo, tem o trabalho que cobra performance. Tem o gestor que fala em números como se fossem pessoas. Tem o KPI que vira termômetro de valor humano. Tem a meta que se transforma em identidade. E aos poucos você começa a se confundir com aquilo que mede você. Se o número cai, você sente que caiu junto.

Quando sai do trabalho, entra no outro turno.

Tem filho que precisa de atenção, de conversa, de presença. Tem pai e mãe que agora precisam de cuidado, de remédio, de consulta, de paciência, de tempo. Tem a sua própria saúde pedindo socorro em sinais que você finge não ouvir. Dor aqui, cansaço ali, uma exaustão que você chama de rotina.

Essa é a geração sanduíche. Espremida entre responsabilidades que vêm de cima e de baixo. Cuidando de todo mundo enquanto desaprende a cuidar de si.

E é nesse lugar que muita gente começa a acreditar que virou o próprio problema. Que virou o atraso, o erro, a meta não batida, a falha, o cansaço. Que você é o desempenho que entregou naquele mês. Que você é a conta que não fechou. Que você é o remédio que esqueceu de comprar. Que você é o filho que não deu tempo de ouvir.

Mas deixa eu te lembrar de algo essencial.

Você não é isso.

Você não é a planilha que te mede.

Você não é o diagnóstico que entrou na sua casa.

Você não é o cansaço que mora no seu corpo.

Você está atravessando tudo isso.

Existe uma parte sua que segue inteira, mesmo no meio do caos. Uma parte que não foi quebrada por nenhuma cobrança, por nenhuma planilha, por nenhum exame, por nenhum prazo. Uma parte que continua sendo direção, mesmo quando você se sente perdido.

O perigo não é viver fases difíceis. O perigo é transformar fases em identidade. É passar a se olhar como problema. É morar dentro da exaustão como se ela fosse quem você é.

Resgatar a percepção de si vira um ato de sobrevivência. É lembrar todo dia que você não é o peso que carrega. Você é quem sustenta o peso. Você não é o nó. Você é quem aprende a desatar.

Quando você se lembra disso, algo muda. O dia ainda é pesado, mas você não se sente pequeno dentro dele. A responsabilidade ainda existe, mas ela não te define. A vida continua exigente, mas você volta a ocupar o próprio lugar dentro dela.

Você não é a pressão que te atravessa.

Você é a presença que segue em pé enquanto ela passa.

Willians Fiori

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