16/01/2026

O GRITO DA CURANDEIRA

 


“O GRITO DA CURANDEIRA.

O grito da curandeira não é som,

é memória antiga a acordar na carne.

É o corpo a lembrar-se de tudo o que foi calado,

de todas as dores engolidas para salvar outros.

É o eco das mulheres e dos homens que curaram em silêncio,

que sangraram sem altar,

que amaram sem serem vistas/os.

O grito da curandeira nasce no ventre,

sobe pela espinha como fogo antigo

e rasga o peito quando já não dá para conter.

Não é fúria é libertação.

Não é fraqueza é verdade.

Ela grita quando percebe

que não pode curar o mundo ferindo-se.

Quando entende que dizer “basta”

também é medicina.

O grito da curandeira é sagrado.

É o momento em que ela escolhe viver,

em que transforma dor em fronteira,

amor em raiz,

e silêncio… em voz.

É O GRITO DA QUE NUNCA FOI SALVA, O GRITO DA DESPREZADA, O GRITO DA QUE NUNCA FOI AMADA.

É O GRITO DA QUE FOI CALADA.

o grito da curandeira é o rezo da mãe. 

É o colo da avó. 

É o olhar do pai.

É a lágrima da criança. 

O grito da curandeira dá-se depois de todas e todos terem gritado a sua dor a sua voz.

O grito da curandeira é o último grito a gritar, pois é o último que renasce e que sempre acaba a suspirar.( alívio)

Pois o seu sagrado é na verdade ser a voz que une o pai as criaturas na mais fria das verdades que acorda sem chamar.

É por isso que a curandeira é velha, a anciã do amar.

A que sustenta o mundo nas costas sem de nada se queixar.

Ser cura é ser parteira das almas, que se inauguram ao chegar .

E por isso um grito não é um berro.

É a alma a acordar .

Para a vida esmurecida, que a voz tem um dia que berra e ninguém ouve o chamar.

O maior grito dá-se no silêncio e ai não se chama gritar.

Chama-se conter o grito , para que muitas possam despertar.

Parteira do grito, a curandeira das almas.

A Anciã Sabedoria.”

Ruy Alma

ViaPagina Amiga Alma Antiga 

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