“O GRITO DA CURANDEIRA.
O grito da curandeira não é som,
é memória antiga a acordar na carne.
É o corpo a lembrar-se de tudo o que foi calado,
de todas as dores engolidas para salvar outros.
É o eco das mulheres e dos homens que curaram em silêncio,
que sangraram sem altar,
que amaram sem serem vistas/os.
O grito da curandeira nasce no ventre,
sobe pela espinha como fogo antigo
e rasga o peito quando já não dá para conter.
Não é fúria é libertação.
Não é fraqueza é verdade.
Ela grita quando percebe
que não pode curar o mundo ferindo-se.
Quando entende que dizer “basta”
também é medicina.
O grito da curandeira é sagrado.
É o momento em que ela escolhe viver,
em que transforma dor em fronteira,
amor em raiz,
e silêncio… em voz.
É O GRITO DA QUE NUNCA FOI SALVA, O GRITO DA DESPREZADA, O GRITO DA QUE NUNCA FOI AMADA.
É O GRITO DA QUE FOI CALADA.
o grito da curandeira é o rezo da mãe.
É o colo da avó.
É o olhar do pai.
É a lágrima da criança.
O grito da curandeira dá-se depois de todas e todos terem gritado a sua dor a sua voz.
O grito da curandeira é o último grito a gritar, pois é o último que renasce e que sempre acaba a suspirar.( alívio)
Pois o seu sagrado é na verdade ser a voz que une o pai as criaturas na mais fria das verdades que acorda sem chamar.
É por isso que a curandeira é velha, a anciã do amar.
A que sustenta o mundo nas costas sem de nada se queixar.
Ser cura é ser parteira das almas, que se inauguram ao chegar .
E por isso um grito não é um berro.
É a alma a acordar .
Para a vida esmurecida, que a voz tem um dia que berra e ninguém ouve o chamar.
O maior grito dá-se no silêncio e ai não se chama gritar.
Chama-se conter o grito , para que muitas possam despertar.
Parteira do grito, a curandeira das almas.
A Anciã Sabedoria.”
Ruy Alma
ViaPagina Amiga Alma Antiga

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