Era uma segunda-feira comum. Pedro, 28 anos, chegou do trabalho exausto. A semana tinha sido pesada: demissão recente, namoro em crise, pai doente. Jogou a mochila no sofá, tomou banho rápido e caiu na cama ainda úmida.
Acordou de madrugada com uma sensação estranha. Luz fraca no quarto. Olhou pro criado-mudo e congelou.
Ali, dobrado ao meio, havia um bilhete escrito à mão.
Papel amarelado, caligrafia caprichada, letra arredondada e perfeita de quem escreve com calma. Mensagem curta, mas que atravessou o peito dele como flecha:
"Meu menino,
Força aí. Tô vendo você de longe.
Vai dar certo.
Vovô João"
O sangue gelou.
O avô João era analfabeto. Nunca soube ler uma linha, assinar o nome. Morreu há 10 anos, depois de uma vida inteira de trabalho braçal, roçado, gado, sol no lombo. No enterro, a família riu com carinho lembrando que ele pedia pros netos lerem as placas de trânsito pra ele.
Pedro pegou o bilhete com mãos trêmulas. O papel era real, tinta ligeiramente borrada nas bordas, como se tivesse sido escrito com caneta esferográfica comum. Dobraduras nítidas. Sem erro de português. Caligrafia elegante.
Ele correu pelas memórias. Ninguém da família escrevia assim. A avó tinha letra miúda e trêmula. O pai, garranchos. Ninguém entrara no quarto — porta trancada, janela fechada, sozinho em casa.
O pânico misturado com um conforto esquisito tomou conta. Sentou na cama, leu e releu. E, entre o susto e as lágrimas, pensou:
“Vovô… como? Você nem sabia escrever.”
Na manhã seguinte, levou o bilhete pra uma amiga médium que conhecia há anos. Contou a história, envergonhado, esperando ouvir “bobagem”. Ela olhou o papel, sentiu um arrepio e disse algo que mudou tudo:
“Seu avô aprendeu a escrever aqui. Ele tá num lugar onde não tem mais as limitações do corpo. Lá, a gente continua evoluindo. Ele quis te mostrar que tá bem, que venceu o analfabetismo que carregou a vida toda, e que tá te acompanhando de perto. Esse bilhete não caiu do céu. Ele materializou ele aqui, usando a energia da casa de vocês. É um recado duplo: ‘tô vivo, tô bem e tô cuidando de você’.”
Pedro duvidava. Levou o papel pra análise: não era impressão digital, não era montagem, tinta comum de caneta bic, papel de caderno pautado igual aos que o avô usava pra embrulhar pão décadas atrás.
O choque virou paz.
Começou a conversar com o avô em voz alta, contando os problemas, pedindo conselho. Dias depois, conseguiu um emprego melhor. O namoro terminou, mas sem dor. O pai melhorou.
E toda noite, antes de dormir, olhava pro criado-mudo e dizia:
“Obrigado pelo bilhete, vovô. Você que é analfabeto aí não, né? Me ensina a ter essa força?”
Esse fenômeno tem raízes profundas em relatos onde desencarnados, livres das limitações físicas, demonstram conquistas impossíveis em vida — como escrever quando nunca souberam. Usam a energia ambiente (ectoplasma sutil) pra materializar mensagens físicas, mostrando evolução espiritual e presença amorosa pra quem ficou.
O analfabeto da Terra se tornou escritor do outro lado.
Não pra impressionar.
Pra abraçar o neto à distância e dizer:
“Eu tô aqui, menino.
Evoluindo por mim.
Cuidando de você.
Força aí.”

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