Às vezes, estás rodeado de pessoas que conheces desde sempre — numa mesa de jantar, numa reunião ou apenas a conviver — e tens uma sensação estranha.
Tudo está no seu lugar: conversas, risadas, gestos familiares. E, no entanto, algo já não funciona.
Você está aqui... mas ao mesmo tempo à distância, como se estivesses a ver a cena por detrás de uma janela.
O mais perturbador é que essa distância não foi escolhida.
Você não se retirou do mundo por rejeição, nem por cansaço social voluntário. Muito pelo contrário. Muitas vezes, este sentimento surge após um período de profunda abertura interior: anos de leitura, questionamento, meditação, trabalho próprio, busca sincera pela verdade e pela paz.
E no entanto, paradoxalmente, esta nova clareza parece estar a escavar uma lacuna com aqueles que te rodeiam.
Assim que as conversas leves se tornam pesadas.
Encontros antigamente naturais estão ficando cansativos.
Alguém está falando, e quase imediatamente, algo se fecha dentro de você.
Você está contando os minutos. Procurando uma saída. E uma pergunta volta, persistente:
Que raio se passa comigo? Por que eu não posso mais ser "normal"?
A dúvida dentro
Naqueles momentos de solidão, uma dúvida mais profunda pode surgir.
Me tornei arrogante sem perceber?
Escorreguei para alguma forma de frieza espiritual?
Estou confundindo isolamento com sabedoria?
O medo é legal. Ela mostra que você ainda é capaz de se questionar - o que é, em si mesmo, um sinal de clareza, não de superioridade.
Mas e se a realidade fosse diferente?
E se o que você está vivendo não tiver nada a ver com a rejeição dos outros, nem com um sentimento de elevação pessoal?
E se esse desconforto foi simplesmente causado pelo fato de você não poder fingir mais?
Fim da participação em ilusões
Quando uma pessoa realmente desperta para a natureza das coisas, ela não se torna nem difícil, distante por escolha, nem desinteressado pela humanidade.
O que desaparece não é o amor - é a capacidade de participar inconscientemente de ilusões coletivas.
Porque grande parte do que chamamos de "interações sociais" é baseada em acordos tácitos:
os papéis a desempenhar,
Máscaras para usar.
Histórias a serem mantidas,
nunca olhando muito profundamente para o que está jogando por baixo.
Não são mentiras maliciosas.
Mecanismos de sobrevivência psicológica, amplamente compartilhados.
Mas quando um dia a cortina sobe - quando vemos claramente a estrutura do jogo - torna-se impossível voltar atrás.
Como quando alguém entende como funciona um truque de magia: o espanto desaparece, não por cinismo, mas por causa da clareza.
Vendo além das palavras
De agora em diante algo muda na forma como você ouve.
Já não ouves apenas palavras.
Percebes o que está por trás.
Por trás de um sorriso você sente a tensão.
Por trás de cada conversa, uma busca por validação.
Por trás de cada sucesso de contar histórias, um pedido silencioso:
"Diga que eu valho"\nDiga que eu existo. »
Quando alguém pergunta como você está, às vezes você sente que não está realmente ouvindo.
Esperando a vez dele para falar. Sua vez de existir.
E isto não é um julgamento.
Isto é uma observação.
Por que está acabando
O verdadeiro esgotamento não vem dos outros.
Vem do fato de que seu ser interior agora reconhece esse atraso - e se recusa a cooperar inconscientemente.
Você ainda pode desempenhar o papel se necessário.
Conheces os códigos.
Respostas esperadas.
A coreografia social.
Mas alguma coisa foi desistida.
Já não há vida nela.
Acabou-se a verdade sentida.
Ficando sem ressonância.
Participar dessas trocas torna-se similar a comer comida que não tem sabor - ou pior, que deixa um sabor artificial.
Sua fadiga não é sinal de rejeição.
Este é um sinal de que o seu sistema interno não pode mais suportar o que não está alinhado.
Uma transição, não um erro
Esta passagem é desconfortável, às vezes solitária, muitas vezes incompreendida.
Mas ele não marca uma derrota.
Ele marca uma transição.
Entre uma vida baseada no desempenho inconsciente
e uma presença baseada na autenticidade.
Você não ficou frio.
Acabaste de ficar mais real.
E aprender a viver desse espaço - sem se fechar, sem se trair - é um dos aprendizados mais sutis e profundos do caminho para dentro.
Alan Watts

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